As carteiras dos métodos renderam mais que a renda fixa?
Reconstruímos seis carteiras mecânicas — Graham, Bazin, Greenblatt, Piotroski, Qualidade e a linha-base do mercado — ponto a ponto, sem usar nenhuma informação do futuro, com dividendos reinvestidos. Depois pusemos cada uma ao lado do CDI e do Ibovespa, no mesmo período e no mesmo aporte. Com a Selic perto de 13%, quase nenhuma carteira de ação bateu a renda fixa nos últimos cinco anos.
Antes de qualquer método, o regime
O achado mais sólido deste teste não é qual carteira ganhou — é que o juro alto venceu quase todas. Entre 2019 e 2026, com o CDI rendendo perto de 13% ao ano sem susto, a renda fixa foi um adversário que a maioria das carteiras de ação não alcançou — nem a de valor, nem a de dividendos, nem a da fórmula mágica.
É por isso que esta página não te entrega uma carteira para copiar. Ela te mostra a conta — inclusive a parte incômoda: no aporte mensal, que é como você investe, nenhuma das seis teria batido deixar o dinheiro rendendo no CDI.
E vale dizer o que este número não é: uma regra permanente. "A renda fixa venceu" é o retrato deste ciclo de Selic alta, perto de 13% — num regime de juro baixo, a mesma conta pode inverter. Isto não é orientação para preferir renda fixa a ações, nem o contrário: é o passado de um período, e o passado não decide o seu futuro.
As seis carteiras, três horizontes, contra o CDI e o Ibovespa
Cada célula é o retorno anualizado da carteira naquele horizonte, e logo abaixo a distância para o CDI no mesmo período e no mesmo fluxo de caixa. Verde superou a renda fixa; vermelho ficou atrás. A tabela abre na ordem em que o método foi declarado — não em ordem de retorno, e isso não expressa preferência nossa.
No aporte mensal — o modo de quem investe todo mês —, nenhuma das seis carteiras superou o CDI. Em nenhuma das três janelas. O que aparece na tabela é a distância que faltou.
| Resultado simulado: carteiras reconstruídas por nós, ponto a ponto — nenhum investidor as manteve de fato. Números do passado, apurados até 07 de agosto de 2026, com preços ajustados por proventos e desdobramentos, e retorno bruto de custos e imposto. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. Nada aqui é recomendação de compra ou venda. | |||
|---|---|---|---|
| Carteira | 3 anosago/2023 → ago/2026 | 5 anosago/2021 → ago/2026 | Máximo*começo próprio de cada carteira |
| Carregando as seis carteiras… | |||
* A coluna “Máximo” não é comparável entre estratégias. Cada método só pode ser reconstruído a partir do ano em que há balanço suficiente — a de dividendos começa em 2021, a de qualidade em 2023, as de valor em 2019. Então a coluna máx mostra períodos de tamanhos diferentes: compare cada carteira com o CDI da própria linha, nunca uma célula máx com a outra. As colunas de 3 e 5 anos, sim, são o mesmo calendário para todas.
“Só a de dividendos bateu o CDI em cinco anos” — e por que isso engana
No aporte único, em cinco anos, a carteira de dividendos (Bazin) fechou acima do CDI. É verdade. Também é o número mais frágil da página — e publicá-lo como manchete enganaria você. Aqui está a fragilidade, ao lado da afirmação, como ela precisa estar.
A mesma carteira, dois aportes, respostas opostas
Cinco anos, carteira de dividendos, contra o CDI do mesmo período:
- A vantagem no aporte único é de +0,6 p.p. ao ano — fina como papel. Qualquer custo, imposto ou mês de azar a apaga.
- Tirar um único nome dos 39 que passaram pela carteira (BBSE3, JHSF3, CSMG3 ou DIRR3) já inverte o resultado e joga a carteira abaixo do CDI.
- Quase todo o ganho veio de dois papéis: CSMG3 (+173%) e JHSF3 (+154%) em 2025. Sem esses dois, não há vitória. Isso é sorte concentrada, não a força do método.
- A carteira abriu com apenas 4 nomes em 2021. Carteira de 3 ou 4 nomes é aposta, não estratégia — o risco de um só papel domina o resultado.
- Em 3 anos a carteira de dividendos perde do CDI (+6,6% contra +12,9% a.a.). O “ela ganhou” existe só na janela de cinco anos e só no aporte único.
Quantos nomes a carteira de dividendos teve a cada rebalance — começou com 4
O que é sólido nos dividendos não é render mais — é cair menos
O retorno-acima-do-CDI da carteira de dividendos é frágil. Mas há uma propriedade dela que se repete em todas as janelas e não depende de dois papéis de sorte: ela cai menos. Na maior tombada de cada carteira, do topo ao fundo, em cinco anos:
Menor queda é o traço robusto dos dividendos, não o retorno superior. A carteira de dividendos amorteceu a −19,5% — e essa mesma queda de −19,5% se repete nas três janelas, contra tombos de 27% a 32% das outras carteiras e −21,9% do Ibovespa. Quem valoriza dormir tranquilo olha esta seção, não a anterior. O CDI, claro, não cai — por isso é a régua.
O que estes números não incluem — e onde eles exageram
- Retorno bruto. Sem corretagem, custódia, spread nem imposto de renda sobre o ganho na venda. O rebalance anual real teria custo e IR — um viés que empurra os retornos das carteiras para cima, nunca para baixo. O CDI aqui já é o cheio; a carteira, não.
- Viés de sobrevivência. O universo é quem está vivo na B3 hoje. Empresas que quebraram e saíram entre 2018 e 2025 nunca foram “compradas” nem tomaram a perda — então as carteiras parecem melhores do que teriam sido. Direção do viés: para cima, +1 a +4 p.p. ao ano. Os colapsos de quem continuou negociando (quedas de 80–95%) estão capturados; só as deslistagens totais escapam.
- Horizonte honesto: no máximo ~7,3 anos. Os fundamentos da CVM que temos vão de 2018 a 2025; com o prazo de divulgação, o primeiro rebalance sem trapaça é maio/2019. Dez e vinte anos são impossíveis com este dado — dizê-lo é mais honesto que inventá-lo.
- Benchmark de dividendos ausente. O IDIV (Índice Dividendos) seria a régua natural da carteira de dividendos e ainda não está ingerido. Enquanto isso, o Ibovespa (que já é total-return) é a régua de bolsa. O CDI é a régua de renda fixa.
- Reconstrução mecânica, sem look-ahead: equal-weight, rebalance anual no 1º pregão de maio (um mês após o prazo da CVM), dividendos reinvestidos na data-ex. Motor fundamentalista o mesmo do Screener do site.
- Fonte de preço: COTAHIST/B3 ajustado por proventos e desdobramentos. Benchmarks: CDI (Selic/B3) e Ibovespa (B3, total-return). Fundamentos: demonstrações entregues à CVM.